27 de jul. de 2008

Tinha um texto longo, bem escrito, planejado, organizado, interessante, colorido, pronto para ser publicado aqui.

mas em um mundo berrante nada pode ser tão agressivo quanto o silêncio e a fuga, o preto, o branco.

treze de outubro - Angelica Freitas


escrever um poema sem calor em são paulo

um poema sem ação: sem carros, sem avenida paulista

quando eu morava na augusta, escrevia poemas sobre a augusta

a augusta não me deixava dormir

(escrever um poema em que se durma na augusta

e sobretudo, escrever um poema sobre dormir

sem você.) esta é a primavera fajuta da delicadeza

(não consigo terminar este poema).

20 de jul. de 2008

Tempo

agora é sempre,
depois é nunca,

espontaneamente,
futuro passado.


27 de mai. de 2008

Um pé lá, um pé cá.

É assim:

abraça o quer ganhar e olha o que não quer perder.

21 de mai. de 2008

Cenário.

Havia algo de mais seriamente profundo naquela sala de estar. Nos cristais, nos três sofás desgastados, na mesa tabaco, mesa preta. Nas paredes brancas que em sua palidez opaca assumiam a amarelidão da lâmpada - três lâmpadas pouco potentes, coisa de 60 watts sendo uma sempre apagada. Até mesmo na rachadura que tomava a parte lateral de uma das 6 paredes da sala - isso porque as salas podem e devem ter mais de 4 paredes. Uma delas, redonda, inclusive; Outra com uma janela enorme, com vistas para todo o céu que for possível enxergar sob a poluição metropolitana. Outra em branco, vazia, enorme, de frente para a outra que era semi-ocultada.

A rachadura ficava na parte lateral de uma das 6 paredes da sala, cortando suavemente sua cobertura, expondo parte do concreto e um fino vão que dá para a escada de acesso à entrada. A entrada ficava na redonda, de frente para uma também vazia e imensa e branca parede, com algumas marcas de pés e mãos e gordura. O vidro da janela tinha um quebradinho e também uma rachadura, como se isso fosse expressão de algo mais que a coincidência.

Os sofás que eram três eram três e três diferentes. Dois tinham tentado que fossem iguais, mas na quase falta de dessemelhança tinham optado por aqueles mesmos. Cada um junto a cada uma das paredes retas. Faltaram três sofás ou sobraram três paredes? Uma era redonda, outra era curta, na outra estava a estante, também tabaco, também desgastada.

Na parede do sofá quadriculado em laranja e bege desbotados tinha um gancho um pouco enferrujado, um pouco brilhante, um pouco branco da tinta da parede que desgastou e pousou ali. A parede da janela também tinha um gancho e este também era um pouco enferrujado, brilhante, branco pousado. Embaixo-em frente da janela estava o sofá encarnado, desbotado do sol que nem batia nele. Cortina não tinha, mas o varão estava sobre a janela, suportado pelas duas extremidades enquanto no centro estavam os furos, estavam os parafusos, mas o apoio de madeira não.

Uma caixa destampada no chão nada continha e nada conteve, mas estava ali e ali ficaria. Ao seu lado, uma bola por criança nunca jogada, isso já ao pé do terceiro sofá: azul com flores franco-reais estampadas na malha grossa. Pela ação do tempo tanto ele quanto o manto que o cobria - com motivos listrado-jamaicanos - eram um maciço de linhas e espuma laranja desfiadas. O manto era o motivo dos ganchos - já foi uma rede.

A pilha de revistas de decoração ao lado do sofá demonstrava uma intenção, mas essas mesmas de velhas já tinham orelhas, manchas e a impressão escurecida, ou clareada. O próprio chão - madeira - tinha alguns tacos soltos, nos cantos dos quais pulavam um e outro pedacinho da construção. A madeira riscada e também manchada. No canto do batente da porta uns pregos prendiam a madeira à parede, e lá estava metade da trava de segurança - a outra quebrou. Acima uma lâmpada que nunca acendia e, a seu lado, a campainha que nunca cantou.

Sobre a mesa outra caixa, menor, de papel mais tosco, com inscrições estrangeiras. Essa fechada e posta de lado. A seu lado um telefone. Uma caneta. Um papel: algo anotado. Um número de telefone, uma seta, um nome, muitas estrelas, muitas espirais, letras perdidas. Em frente à mesa uma cadeira de couro marrom e metal, giratória. Seu couro com cantos comidos, costuras pretas do tempo e rangido no metal ao girar parecia nunca ter servido assento a pessoa qualquer.

Da fresta entre as folhas da janela vento fresco corria para se juntar ao que vinha sob a porta. Bolinhas de poeira se juntavam em uma dança tribal, até que a brisa cessou e permitiu assentarem de novo, tranqüilamente, entre os tacos e as folhas da pilha de revistas.

Havia ainda algo mais.

Deveria haver algo mais.

Mas tudo ao redor era branco de uma amarelidão opaca e desgastada, rachaduras e frestas.

- Continua -

17 de mai. de 2008

Queixa

Um amor assim delicado
....................................Você pega e despreza
...................................................................Não devia ter despertado
....................................Ajoelha e não reza

Dessa coisa que mete medo
Pela sua grandeza
Não sou o único culpado

Disso eu tenho a certeza

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa

Um amor assim violento
....................................Quando torna-se mágoa
........................................................................É o avesso de um sentimento
....................................Oceano sem água

Ondas, desejos de vingança
Dessa desnatureza
Bateu forte sem esperança
Contra a tua dureza

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa

Um amor assim delicado
....................................Nenhum homem daria
.....................................................................Talvez tenha sido pecado
....................................Apostar na alegria

Você pensa que eu tenho tudo
E vazio me deixa
Mas Deus não quer que eu fique mudo.
E eu te grito esta queixa

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa

4 de mai. de 2008

Fuga sobre a morte.

Leite-breu d`aurora nós o bebemos à tarde
nós o bebemos ao meio –dia e de manhã nós o bebemos à noite
bebemos e bebemos
cavamos uma cova grande nos ares onde não se deita ruim
Na casa mora um homem que brinca com serpentes e escreve
que escreve para a Alemanha quando escurece teus cabelos de ouro Margarete
ele escreve e aparece em frente a casa e brilham as estrelas
ele assobia e chama seus mastins
ele assobia e chegam seus judeus manda cavar uma cova na terra
ordena-nos agora toquem para dançarmos

Leite-breu d`aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos de manhã e ao meio –dia nós te bebemos à tarde
bebemos e bebemos
Na casa mora um homem que brinca com serpentes e escreve
que escreve para a Alemanha quando escurece teus cabelos de ouro Margarete
Teus cabelos de cinza Sulamita cavamos uma cova grande nos ares onde não se deita ruim

Ele grita cavem mais até o fundo da terra vocês ai vocês ali cantem e toquem
ele pega o ferro na cintura balança-o seus olhos são azuis
cavem mais fundo as pás vocês ai vocês ali continuem tocando para dançarmos

Leite-breu d`aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio–dia e de manhã nós te bebemos a tardinha
bebemos e bebemos
Na casa mora um homem teus cabelos de ouro Margarete
teus cabelos de cinza Sulamita ele brinca com as serpentes

Ele grita toquem mais doce a morte é uma mestra d`Alemanha
Ele grita toquem mais escuro os violinos depois subam aos ares como fumaça
e terão uma cova grande nas nuvens onde não se deita ruim

Leite-breu d`aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio–dia a morte é uma mestra d`Alemanha
nos te bebemos à tarde e de manhã bebemos e bebemos
a morte é uma mestra d`Alemanha seu olho é azul
ela te atinge com bala de chumbo te atinge em cheio
na casa mora um homem teus cabelos de ouro Margarete
ele atiça seus mastins contra nós dá-nos uma cova no ar
ele brinca com as serpentes e sonha a morte é uma mestra d`Alemanha

teus cabelos de ouro Margarete
teus cabelos de cinza Sulamita

Paul Celan
Todesfuge - Texto original (em Alemão)

20 de abr. de 2008

Se meus leitores pudessem ter consciência de alguma verdade sobre mim.

Esperava que tudo o que tem sido escrito e lido, todas as escolhas de fontes e cores, a mistura que mais sinestésica só poderia ser se pudesse trabalhar também com sons e cheiros e movimento (mas aí possivelmente estaríamos tratando de outra forma artística um tanto próxima por ter os textos como base, um tanto distante por unir outras formas como a dança, o canto, artes plásticas) pudesse trazê-los (ou levá-los) a essa uma consciência real sobre essa alguma verdade sobre mim. Essa alguma verdade não é algo que pode ser lido nas capitulares textualmente nem uma tradução literal de qualquer imagem poética que eu possa ter tentado inutilmente utilizar. É uma linearidade de imagens que, como naqueles jogos no qual alguém estabelece uma regra de associação de palavras e os outros precisam descobrí-la, jogando por horas e horas sem notar o tempo passando, tem me trazido escrevendo durante esse meio-tempo. Mas claro, a visibilidade dessas imagens é tão grande quanto a possibilidade de um leitor que me desconhece descobrí-las. Estão presentes não somente aqui, mas em minha própria pessoa. Eis uma grande questão para os colegas, todos. É uma grande questão para mim mesmo, pois permitir que se disponibilizem visualmente dentro de meu curtíssimo e desprovido de criatividade espectro de ações é de grande dificuldade. No entanto, a manutenção disso é algo que preciso, ainda que virtualmente - no sentido artificial da coisa, não falando na grande-rede - manter. É uma busca idiota, isso é certo, e talvez por isso exista tanta alegorização, afinal, se eu tenho algo em minha mão e abro, esse algo cai e se quebra, eu me ajoelho e tento pegá-lo - esse algo já de desfez - e, ao invés de como um oleiro que toma nas mãos um vaso quebrado e restaura-o tentar restaurar também isso que era meu e tão somente meu, tão interno a mim e tão parte de mim, simplesmente agi como o bom homem moderno que sofre, mas caminha seriamente como se fosse apenas mais um vaso quebrado, com toda a seriedade moderna de quem já se acostumou às perdas. Um chef de cozinha tem por estimação sua colher de prata, suas panelas, seus equipamentos. Um bom chef de cozinha tem ainda suas receitas, guarnições e toques mais bem estimados. E não é assim para a vida? A diferença é que de pouco importa se eu guardo como minha vida o segredo do tipo de abobrinha certa para um Minestroni se eu não tiver para quem cozinhar. A sutil escolha de palavras é essencial, e talvez se a escrita fosse somente para aqueles os quais não se permitiram ainda alguma convivência com esse que outrora foi conhecido como crítico, o controle de palavras - tal qual como o clássico catar feijão, para manter as metáforas gastronômicas - poderia ser feito mais à revelia.

Fiz um rol de palavras proibidas e lá escrevi "..." . Em seguida inseri tudo o que tinha relação paradigmática - como se pudesse definir um critério semântico - até me afastar do que pudesse ser ligado diretamente a essa primeira constelação. mas em níveis secundários, tudo leva a um único e insubstituível sintagma que podia ser transformado em setilhas, redondilhado-maior, sete, sete, sete, sete... 9.000 x 7.

Imagino um círculo com diversos traços circunscritos. Todos, invariavelmente, diagonais. Sete em cada direção. 45x7, 135x7, 225x7, 325x7. O breu os afasta. Vasos quebrados. Pedras preciosas. Irmãs. Esboços de abstrações se repetem em minha mente, sete vezes, como uma se houvesse uma cantiga escondida atrás das letras, cantada por um coro infantil de trinta e nove vozes:

Love, love, love, love, love, love,
Love, love, love, love, love, love,
There's nothing you can do that can't be done.
Nothing you can sing that can't be sung.
Nothing you can say but you can learn how to play the game... It's easy...
All you need is love... All you need is love...
All you need is love, is love... Love is all you need.
(repeat 7x)