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27 de jul. de 2008

sem título

Não preciso cirandar na noite
com objetos imaginários.

Posso navegar por toda a vida
criando meu próprio necessário.

A pequena loucura de quem não diz
me basta.

Tinha um texto longo, bem escrito, planejado, organizado, interessante, colorido, pronto para ser publicado aqui.

mas em um mundo berrante nada pode ser tão agressivo quanto o silêncio e a fuga, o preto, o branco.

treze de outubro - Angelica Freitas


escrever um poema sem calor em são paulo

um poema sem ação: sem carros, sem avenida paulista

quando eu morava na augusta, escrevia poemas sobre a augusta

a augusta não me deixava dormir

(escrever um poema em que se durma na augusta

e sobretudo, escrever um poema sobre dormir

sem você.) esta é a primavera fajuta da delicadeza

(não consigo terminar este poema).

21 de mai. de 2008

Cenário.

Havia algo de mais seriamente profundo naquela sala de estar. Nos cristais, nos três sofás desgastados, na mesa tabaco, mesa preta. Nas paredes brancas que em sua palidez opaca assumiam a amarelidão da lâmpada - três lâmpadas pouco potentes, coisa de 60 watts sendo uma sempre apagada. Até mesmo na rachadura que tomava a parte lateral de uma das 6 paredes da sala - isso porque as salas podem e devem ter mais de 4 paredes. Uma delas, redonda, inclusive; Outra com uma janela enorme, com vistas para todo o céu que for possível enxergar sob a poluição metropolitana. Outra em branco, vazia, enorme, de frente para a outra que era semi-ocultada.

A rachadura ficava na parte lateral de uma das 6 paredes da sala, cortando suavemente sua cobertura, expondo parte do concreto e um fino vão que dá para a escada de acesso à entrada. A entrada ficava na redonda, de frente para uma também vazia e imensa e branca parede, com algumas marcas de pés e mãos e gordura. O vidro da janela tinha um quebradinho e também uma rachadura, como se isso fosse expressão de algo mais que a coincidência.

Os sofás que eram três eram três e três diferentes. Dois tinham tentado que fossem iguais, mas na quase falta de dessemelhança tinham optado por aqueles mesmos. Cada um junto a cada uma das paredes retas. Faltaram três sofás ou sobraram três paredes? Uma era redonda, outra era curta, na outra estava a estante, também tabaco, também desgastada.

Na parede do sofá quadriculado em laranja e bege desbotados tinha um gancho um pouco enferrujado, um pouco brilhante, um pouco branco da tinta da parede que desgastou e pousou ali. A parede da janela também tinha um gancho e este também era um pouco enferrujado, brilhante, branco pousado. Embaixo-em frente da janela estava o sofá encarnado, desbotado do sol que nem batia nele. Cortina não tinha, mas o varão estava sobre a janela, suportado pelas duas extremidades enquanto no centro estavam os furos, estavam os parafusos, mas o apoio de madeira não.

Uma caixa destampada no chão nada continha e nada conteve, mas estava ali e ali ficaria. Ao seu lado, uma bola por criança nunca jogada, isso já ao pé do terceiro sofá: azul com flores franco-reais estampadas na malha grossa. Pela ação do tempo tanto ele quanto o manto que o cobria - com motivos listrado-jamaicanos - eram um maciço de linhas e espuma laranja desfiadas. O manto era o motivo dos ganchos - já foi uma rede.

A pilha de revistas de decoração ao lado do sofá demonstrava uma intenção, mas essas mesmas de velhas já tinham orelhas, manchas e a impressão escurecida, ou clareada. O próprio chão - madeira - tinha alguns tacos soltos, nos cantos dos quais pulavam um e outro pedacinho da construção. A madeira riscada e também manchada. No canto do batente da porta uns pregos prendiam a madeira à parede, e lá estava metade da trava de segurança - a outra quebrou. Acima uma lâmpada que nunca acendia e, a seu lado, a campainha que nunca cantou.

Sobre a mesa outra caixa, menor, de papel mais tosco, com inscrições estrangeiras. Essa fechada e posta de lado. A seu lado um telefone. Uma caneta. Um papel: algo anotado. Um número de telefone, uma seta, um nome, muitas estrelas, muitas espirais, letras perdidas. Em frente à mesa uma cadeira de couro marrom e metal, giratória. Seu couro com cantos comidos, costuras pretas do tempo e rangido no metal ao girar parecia nunca ter servido assento a pessoa qualquer.

Da fresta entre as folhas da janela vento fresco corria para se juntar ao que vinha sob a porta. Bolinhas de poeira se juntavam em uma dança tribal, até que a brisa cessou e permitiu assentarem de novo, tranqüilamente, entre os tacos e as folhas da pilha de revistas.

Havia ainda algo mais.

Deveria haver algo mais.

Mas tudo ao redor era branco de uma amarelidão opaca e desgastada, rachaduras e frestas.

- Continua -

20 de abr. de 2008

Se meus leitores pudessem ter consciência de alguma verdade sobre mim.

Esperava que tudo o que tem sido escrito e lido, todas as escolhas de fontes e cores, a mistura que mais sinestésica só poderia ser se pudesse trabalhar também com sons e cheiros e movimento (mas aí possivelmente estaríamos tratando de outra forma artística um tanto próxima por ter os textos como base, um tanto distante por unir outras formas como a dança, o canto, artes plásticas) pudesse trazê-los (ou levá-los) a essa uma consciência real sobre essa alguma verdade sobre mim. Essa alguma verdade não é algo que pode ser lido nas capitulares textualmente nem uma tradução literal de qualquer imagem poética que eu possa ter tentado inutilmente utilizar. É uma linearidade de imagens que, como naqueles jogos no qual alguém estabelece uma regra de associação de palavras e os outros precisam descobrí-la, jogando por horas e horas sem notar o tempo passando, tem me trazido escrevendo durante esse meio-tempo. Mas claro, a visibilidade dessas imagens é tão grande quanto a possibilidade de um leitor que me desconhece descobrí-las. Estão presentes não somente aqui, mas em minha própria pessoa. Eis uma grande questão para os colegas, todos. É uma grande questão para mim mesmo, pois permitir que se disponibilizem visualmente dentro de meu curtíssimo e desprovido de criatividade espectro de ações é de grande dificuldade. No entanto, a manutenção disso é algo que preciso, ainda que virtualmente - no sentido artificial da coisa, não falando na grande-rede - manter. É uma busca idiota, isso é certo, e talvez por isso exista tanta alegorização, afinal, se eu tenho algo em minha mão e abro, esse algo cai e se quebra, eu me ajoelho e tento pegá-lo - esse algo já de desfez - e, ao invés de como um oleiro que toma nas mãos um vaso quebrado e restaura-o tentar restaurar também isso que era meu e tão somente meu, tão interno a mim e tão parte de mim, simplesmente agi como o bom homem moderno que sofre, mas caminha seriamente como se fosse apenas mais um vaso quebrado, com toda a seriedade moderna de quem já se acostumou às perdas. Um chef de cozinha tem por estimação sua colher de prata, suas panelas, seus equipamentos. Um bom chef de cozinha tem ainda suas receitas, guarnições e toques mais bem estimados. E não é assim para a vida? A diferença é que de pouco importa se eu guardo como minha vida o segredo do tipo de abobrinha certa para um Minestroni se eu não tiver para quem cozinhar. A sutil escolha de palavras é essencial, e talvez se a escrita fosse somente para aqueles os quais não se permitiram ainda alguma convivência com esse que outrora foi conhecido como crítico, o controle de palavras - tal qual como o clássico catar feijão, para manter as metáforas gastronômicas - poderia ser feito mais à revelia.

Fiz um rol de palavras proibidas e lá escrevi "..." . Em seguida inseri tudo o que tinha relação paradigmática - como se pudesse definir um critério semântico - até me afastar do que pudesse ser ligado diretamente a essa primeira constelação. mas em níveis secundários, tudo leva a um único e insubstituível sintagma que podia ser transformado em setilhas, redondilhado-maior, sete, sete, sete, sete... 9.000 x 7.

Imagino um círculo com diversos traços circunscritos. Todos, invariavelmente, diagonais. Sete em cada direção. 45x7, 135x7, 225x7, 325x7. O breu os afasta. Vasos quebrados. Pedras preciosas. Irmãs. Esboços de abstrações se repetem em minha mente, sete vezes, como uma se houvesse uma cantiga escondida atrás das letras, cantada por um coro infantil de trinta e nove vozes:

Love, love, love, love, love, love,
Love, love, love, love, love, love,
There's nothing you can do that can't be done.
Nothing you can sing that can't be sung.
Nothing you can say but you can learn how to play the game... It's easy...
All you need is love... All you need is love...
All you need is love, is love... Love is all you need.
(repeat 7x)

23 de jan. de 2008

Quem veio primeiro: o título ou o texto?

Ia escrever um post bem interessante, algo reflexivo, interno, profundo, com diversos matizes e tons e cores. Desisti. Desisti porque quando cliquei no campo título para escrever o título, escrevi três caracteres "Tud" e então resolvi clicar embaixo, aqui mesmo, no nosso "papel em branco digital", o campo onde o texto flui, para escrevê-lo, sem pensar no título. Aí que me veio a estranha sensação de que o texto já tinha um nome definido e eu estava mudando o rumo dos fatos. E a sensação de que escrevendo o título primeiro eu estaria realizando uma auto-coerção. O texto não teria exatamente um tema específico, gostaria aberto, então o título seria realmente repressivo aos meus pensamentos. Mas e o pensamento do título-frase que me veio à mente quando idealizei tal texto?

Nesse "escrevo o texto ou crio o título", me pus a pensar. Quantos textos escrevo os títulos primeiro, antes de desenvolvê-lo? Em Diagonal, o diagonal surgiu no final. Em Ali. Sépia, o título veio de uma contemplação posterior... E na maior parte também.

Ficou a dúvida e a pergunta que gostaria de compartilhar com vocês:

Quem veio primeiro: o título ou o texto?


O título nasceu na frase acima. E sorrindo.

29 de dez. de 2007

Daria uma tirinha...

Sempre quis um walkie talkie, mas nunca comprei...



Nunca tive quem ficasse com o outro comunicador...


Depois descobri que não precisava de um desses... =)

13 de dez. de 2007

O meu "Espontâneo"

Nem os mais sublimes olhos fremosos entendem minha loucura? Algumas coisas me fazem pensar diferentemente do que normalmente defendo. Mas como são idéias que defendo não devo simplesmente debatê-las em público, comigo mesmo, não é? Será que isso seria um convencimento de mim mesmo sobre as idéias que tento me impor? se for assim venci mais uma vez de mim mesmo. Bom, deixando isso de lado, vamos ao que importa. - Sabe que "o que importa" me lembra uma música: O que me importa seu carinho agora, Se é muito tarde para amar você, O que me importa se você me adora, Se já não há razão para lhe querer, O que me importa ver você sofrer assim, Se quando eu lhe quis você nem mesmo soube dar... amor... O que me importa ver você chorando, Se tantas vezes eu chorei também, O que me importa sua voz chamando, Se pra você jamais eu fui alguém, O que me importa essa tristeza em seu olhar, Se o meu olhar tem mais tristezas pra chorar que o, seu... O que me importa ver você tão triste Se triste fui e você nem ligou O que me importa o seu carinho agora Se para mim a vida terminou..." - E o que realmente importa? Ahá! Voltemos então desse pequeno 'traços' (já que preferi usar traços... no lugar do par curvadinho). A fala verdadeira não é dita... E, clááro, eu preciso (sempre) complexificar meus diálogos comigo mesmo...
Quem sabe assim um dia, desisto de pensar. Ou desisto de escrever, ou desistem de ler (ideal?)

Tenho ouvido muito a banda Zofka, a Myriam Russo tem uma voz linda, e cantando em francês, claro. Uma frase da música dire adieu, diz: pour jamais plus s'oublier. Eu entendo o que é esse tal de jamais plus oublier. Acho que por isso que gosto tanto do Rubem Fonseca. Mas o que tem a ver ele? É, e por isso gostei tanto do São Bernardo. Olha que bonito. Isso até daria uma análise do massi. Pseudo-contrastiva, emotiva, autobiográfica. O que é bonito, vamos dizer, nesses textos, vamos dizer?

Eu acho que no fundo no fundo a Andressa e o Felipe me entendem. É, talvez o Rapha. Tudo isso porque, tenho certeza, alguém está tentando acreditar que as coisas vão melhorar, ultimamente.
E as aulas de francês vão de mal a pior. Na última, rolou um "êêêêêêpaaa"
do Paulo. Culpa do Passé Composé. É tipo dona de casa dando remédio pro bichinho de estimação. Não entende que é só fazer uns carinhos e distrair o bichinho que o remédio vai? passé composé...

Faz tempos que não escrevo um post assim. Não assim no sentido de 'dessa forma', sendo tomado como base e pressuposto forma como "prosa".

A grande questão desse texto é a necessidade da expressão, mesmo quando na aparente falta de correlação entre forma e conteúdo, se é que contra os pressupostos teóricos já tão pré-fixados eu poderia realizar algum comentário... E eu já tentei tanto comentar contra pressupostos teóricos pré-fixados...

Mas vejam que interessante, e isso é o que é bonito, vamos dizer, nisso. Eu aprendi a simplesmente aceitar, sem entender, e por mais que pareça uma digressão complexa, é tudo muito simples... Mas da apresentação simples também faz parte a explicação de cada termo, ou seja, para simplificar, como os realistas, prolongamos, então após prolongar, como foi explicado, se complexifica, e o conceito inicial é perdido-subvertido-abandonado ou arruma-se uma explicação pra isso. Mas e quando você não quer explicar nem entender? Então, ora bolas, não me amole, o que a gente precisa é um pouquinho de compreensão e tranqüilidade (usando a trema enquanto ainda posso). compreensão no sentido de entendimento entre pessoas, não no stricto sensu etc, mas no sentido de acordo.

Eu acredito na arbitrariedade.
E eu tenho certeza que, se não fosse essa frase que começou com "E eu tenho certeza", ou seja, se o texto terminasse com efeito em "Eu acredito na arbitrariedade", seria grande-facilitador para que todos os comentários sobre esse texto fossem: "Eu acredito tb!" ou "Eu não acredito", ou "Viva saussure" ou coisas assim... E eu queria tanto que fosse lido tudo, sabem. Nem precisa comentar, eu sei que lê. por isso escrevo. porque eu sei que lê.

9 de dez. de 2007

O que me seria sem a tua poesia?

Você nasceu para a literatura.

Poesia ou prosa?

Sei lá... eu diria: minha inspiração.

5 de dez. de 2007

"Nunca tive medo de desistir. Muito mais covarde é aquele que insiste, apenas para não assumir, 'sou fraco'. Já não tenho mais a pretensão de insistir, se é que a houve - houve... E por isso ainda choro todas as noites... Insistir? Perda de tempo. Estou convencido de minha fraqueza"

Disse o poeta. Ou queria ter dito. Ao menos pensou. Mas ele sabe que é fraco o suficiente para não falar. Já não há mais palavras em seus olhos - provedores de suas melhores falas.


15 de nov. de 2007

Quadrados Ondulados

Não quero ser virtualmente legal. Não quero o plástico, ondas quadradas.

Os amigos são fotos e textos em Tahoma 10 num fundo azul. Não, eles têm movimento também, nos vídeos que posso ver no youtube. Se quiser ouvir uma música legal, tenho o LastFM, as rádios online... Para que ouvir alguma música ao vivo?

Por aqui eu posso pensar em falar tudo o que eu desejo... Afinal, meu diálogo aparentemente é comigo mesmo, com minha tela, com minha base retangular plástica com cubos - ridículos losangos sujos - que se transformam toque-a-toque em minha voz. Para que a mão quando tenho mais de 1.000.000.000 tipos de fontes no Google para escrever? O movimento leve da caneta virou um tec tec tec que gera um etc etc etc sem sentido, sentimento. É maquinário-leve, é tecnologia, moderno. Agora o movimento é uma dança de dedos buscando os ladrilhos certos, contorcionistas.

Aqui não temos corpos, nem faces, nem vozes, nem toques... Não temos nós... Fomos digitalizados. Não posso mais dizer que alguém é lindo, se não o vejo. Posso dizer: Você tem fotos lindas, você tem vídeos lindos, você escreve textos lindos no seu blog... E o que são estes?

Fotografias são seqüências organizadas de microgotículas de tinta em um papel bem-feito (quando impressas). Não sou eu. Vídeo é uma série de dados digitais seqüenciados em 00101011011000101010. Não sou isso. A visão virtual das coisas se resume à mistura vermelho verde azul branco, jogados como realidade sobre nossos olhos. É o que nos tornamos.

Aceitamos.

Segundo o orkut eu era dividido em cinco [geral / social / contato / profissional / pessoal] e precisava de dicas diárias de como viver. Fazia parte de três grupos de pensamento. Era sagaz, observador e analítico por natureza, herdaria uma grande fortuna, tinha 38 amigos e 6 fãs, era 100% confiável, 100% legal e 90% sexy. Tinha 11 fotos, vitrine de minha vida para o mundo. "É uma família linda" - pensavam.
Pelo orkut o Fernando teria uma gata e tiraria fotos com ela; Não tinha paixões, esportes, atividades, livros preferidos, músicas, programas de tv, filmes ou 'alimentos'. Não fumava, não bebia, não tinha estilo, não tinha animais de estimação, filhos, etnia, religião, visão política, humor, orientação sexual.
Não tinha escolaridade, profissão, interesses profissionais.
Nada chamaria atenção em mim, segundo o orkut: meus olhos não têm cor, meus cabelos não têm cor, não tenho tipo físico nem arte no corpo. Nem aparência, nem o que mais goste em mim.
Nada me atrai. Não há o que não suporte. Não há primeiro encontro ideal; Não aprendi nada com relacionamentos anteriores. Não há com o que não consiga viver. No meu quarto nada se encontra.
Não tenho um par perfeito.

Não Aceito.

Já que não estou no orkut, não sou.
Não há mais perfil meu lá.

Não Existo.

[aí aqui embaixo você escreve: 'Aprendendo com o Vazio']

21 de out. de 2007

Diagonal

Preciso de um espelho para melhor encontrar as cores nas quais vou me camuflar de mim mesmo, dentro de minha própria pele, opressora. Passarei horas e horas em frente a esta máscara, me reinventando. Enganarei meus olhos com minha própria pele, influenciarei minha visão, subverterei minhas retinas, meu cérebro, até que suma de minhas vistas essa imagem estranha a mim mesmo. Olharei e me deliciarei ao não ver. Essa pele é dolorosa. Os olhos se arrepiam e gelam em repulsa disso, que não sou eu.

Quando chegar a noite, a sombra cobrirá o banheiro branco, o espelho manchado, a pia, o sanitário. Fundirá o espaço.

Me estendo. Já não caibo no espelho. Ele se parte e seus cacos se espalham. Me descamuflo nessa fusão do que sou, sinto, quero. Frágil, recolhem os cacos. Embrulham num jornal. Nos embolam num saco. Um caco agarra minha garganta. Diagonal. Lento. Rasga a casca, funde ao interno: Fundo. Rasga minha pele. Meus olhos. O rasgo é um escape. Fluo. O interno recobre o externo, o espelho acessa o interno. Reconheço nos cacos cacos de mim. No reflexo do fluxo o próprio espelho se reconhece: Sou ele.

20 de out. de 2007

Palavra.

Senti uma dor tão grande que se pudesse gritar minha garganta se dilaceraria em mil partículas. E seria pouco. É uma dor uma mistura de tudo. A dor de sempre, mas tão mais intensa! Não há morfina que resolva a dor-da-mistura-de-tudo. Ela começa nos ouvidos, vai se entranhando, chega aos olhos fazendo-os se fecharem, as mãos vão aos olhos, amparam-nos enquanto a dor desce, amarrando a garganta e fechando os pulmões de alumínio. Estes são amassados, triturados, pressionados, até serem transpassados pela palavra que destruiu os ouvidos. A dor, tão grande, pesa nas costas, contrai os ombros, trava o tórax. Talvez se me abraçasse a mim mesmo esse toque transformaria as articulações travadas num grito, a plenos pulmões. Esse sufoco almado seria expelido num berro desesperado e mal-articulado que tomaria todo meu ser, com todas as forças restantes concentradas num movimento de extração, refluxo, libertação!

Não tenho voz para isso.

Esse grito não sai, essa dor, não sai.

Não sai.

7 de out. de 2007

Sobre.

Não é que simplesmente ignore tudo o que ouça. Sempre fui dado à solidão... É melhor. Tem umas pessoas que são tão importantes que duas ou três palavras suas podem me fazer ruir, como uma bola de sorvete se desmanchando docemente na areia;

Nunca trouxe um amigo a minha casa; Aqui, onde resido desde 2002, nem na anterior, nem na outra, nem na outra. Me acostumei a estar sozinho. Parece um tanto contraditório de minha parte, visto que estou sempre meio rodeado de gente, e quando não estou procuro pessoas para me envolver em seus papos... No entanto um espírito comunicativo não significa exatamente um espírito 'acompanhado' ou 'acompanhável'. Tenho uma certa individualidade que... uma necessidade de um pouco de silêncio.

Quando estou sozinho posso ponderar as palavras que falo para mim mesmo. Crio estratagemas das coisas que nunca vou fazer... Teorizo o mundo sem preocupação com a dialogicidade: Ela sempre existe comigo mesmo. Teço diálogos que nunca vão ocorrer com tanta realidade que certas palavras chegam a ressoar em meus ouvidos... Penso em sorrisos que me acompanham mesmo que não tenham sido direcionados a mim, penso em sonhos nos quais os diálogos mais aprazíveis acontecem e me deleito. O sonho, este também é meu espaço (mesmo não tendo domínio sobre ele). Me sinto um Bobby com seu fantástico mundo... E os balõezinhos que brotam sobre minha cabeça são cada dia maiores... Abarcam o mundo. Abarcam os céus.

Tantas foram as vezes em que ouvi coisas as quais não me interessavam, que não correspondiam à minha verdade, ao meu mundo... Fui depurando. Certa vez foi falado em aula sobre a necessidade de algumas pessoas em reafirmarem-se como únicas conhecedoras de si mesmas... E sou tão assim! Não adianta vir me dizendo um "te conheço", "já passei por algo igual" ou "te manjo". Eu vou acabar tendo que te provar que não, você não me conhece, você não me entende, você não sabe como eu penso. Talvez venham daí os meus problemas com relação aos pensamentos de grupo. Me aproximo do geralista, normalmente, buscando manter o individual. Gosto de flutuar por entre as facções e ter o meu pensamento individual... E por diversas vezes acabo me afastando de grupos... Me reafirmo, por negação... Prefiro me afastar a ser abandonado... E é difícil ceder ao afastamento em busca do não-abandono. Me apego a mim mesmo. Tapo esse buraco com uns desenhos em tons frios, com textos sem serifas, muitas arestas, poucos leitores...

Imagino brotar um sorriso complacente naquele rosto, se lesse isso...

Sinto uma falta enorme. E é uma falta tão enorme que nem sei exatamente de quê. Vejo só uma tênue sombra... Mas já não sei se é sombra do mundo pensado, se é do que vejo, se é algo sonhei, teorizei, inventei... Queria que tivesse sonhado, mas acho que não é. Se fosse um sonho poderia ser uma premonição... E delas eu não posso fugir.

22 de set. de 2007

Me sinto pedaço d'água, hoje.

Imagine um gelo: Pedaço d'água. Existem máquinas que os fazem, com líquidos em serpentinas e outras parafernalhas... Nessas serpentinas, rolam gases, refrigerantes... Aqueles que, para a produção do gelo, acabam com o gelo natural.

Me sinto uma Geleira em corrosão.

Cada pífio pedacinho cai como parte do interlúdio destrutivo. Se lançam ao Oceano, se integram a ele. Em segundos são negro, evasivo Oceano. Alí estão, em meio ao resto. O Oceano não muda de aspecto naquele local, apenas aumenta picometricamente de volume, absorvendo-as; o volume daquelas partículas é insignificante como elas; Individualmente, no Oceano, mudam nada. O que muda é a Geleira, em corrosão. A cada queda perde sua forma, a cada pedacinho perde mais um pouco de sua lividez... A Geleira vai se desfazendo, desfazendo...


Me sinto pedaço d'água, hoje.

8 de set. de 2007

Uma Clareira.

É uma clareira. Porque não caminhamos para lá? Talvez tenha sido feita por algum nativo, por alguém que conhece bem o local e possa nos rumar para a saída, para nosso destino! Você sente estes sons? Se não formos até lá, em breve eles virão até nós; O que será melhor? Já te disse, eu vejo uma clareira, porque não vamos até lá? Talvez encontraremos fartura, quem sabe algum hepicóptero nos leve até o alto, bem distante de onde nos encontramos. Ouça o barulho das águas límpidas que lá nos banharão! Você sente esse frescor? Rumemos para lá!

Há uma clareira? Ignoro.

Não compreendo... Seria mais fácil simplesmente estacar, estagnar e morrer;
Porque essa busca se quando avistamos local aprazível nos afastamos?

Continue.

Mas, porque esperar apenas pelo fim, porque tanto pathos, se o dia próximo pode não vir? A cada dia penso talvez este será o último de nosso sofrimento. Quem sabe acontecerá uma reviravolta, uma revolução, uma peripécia... A busca está próxima do fim, estamos à beira dele, cada mínima célula de minha pele, de meu corpo, de minha língua me fazem experimentar a estranha sinestesia alegre de possível mudança. Essa espera traz a frustração mórbida do aborto de um primogênito, do roubo de preciosidades, da luta pelo intocável... É aquela bola de sorvete que rola suavemente pela areia fina em um sábado de janeiro, enquanto o loirinho se (des)contenta com o resto que sobrou na casquinha. A cada manhã me sinto como esse menino. Vejo meu sorvete caído na areia, me lembro das poucas moedas que guardei para poder comprá-lo... Poderia ter, então, comprado várias casquinhas... Mas eu, criança, investi toda a minha pequena fortuna naquela única bola ; E agora ela alí, se desfazendo em violação aos meus desejos, rolando docemente pela areia.

Decepção. Quando surge um novo micro-ímpeto matutino, quando vejo uma clareira à nossa frente, logo à diante, tão atraente, acessível, acalentadora... "Continuamos"?
Não compreendo, não compreendo. Na verdade nunca pude compreender certas coisas; muitas delas; Agora somos nós, aqui, nisso. Como pudemos chegar aqui? Desfaleço a cada segundo, a cada passo, e haverá mão que me arvore? Tua mão?
Estamos em um pedaço de mundo que não é papel, que não é cores, que não é, simplesmente... Não é aquela alvura-sépia, não é beleza-estelar... É o que me resta. momentos mal entendidos solidões ajoelhamentos invasões insobriedades e elogios à loucura.

É uma clareira, clareira, regaço, uma explosão de luzes estelares que nos acomodarão entre terra e aqueles céus, tão seus... Porque não vamos até lá? Caio-me em meio às tarlatanas de suas roupas, peço, rogo, porque não vamos até lá? Haverá festa, comida, música, claridade, luz, vida! Porque não vamos até lá?

Olhe a terra. Olhe para nós. Olhe ao redor de nós. Olhe em volta. Escute, escute bem. O que você sente?

Silêncio.
Pois bem, silêncio. É o que ouço, sinto e desejo.
Cale-se e continuemos.

Você vê alguma clareira? Tem premonições de festas, de claridade, vida? Deseja águas límpidas? Ouve batida? Há alguma batida? Há algo disso envolta?
Parece que não há, não é mesmo?

O que há?
Veja, sinta, toque.
O que há?

Nada aprazível.
Contente-se com isto, é o máximo que poderei fazer por você.
A noite há de se aproximar breve, então toda essa matutinidade se esvairá.



A noite é sempre.

24 de jul. de 2007

Um Jazz inaudito.

A cada dia me desfaço de mais um pedacinho de mim.

Me livrando disso tudo quem sabe não vai junto este - eu mesmo?

Agora alegorizo com meu saxofone lamúrios que ninguém pretende ouvir. Já me deram o saxofone para que eu não falasse, e hoje nem mais seu som é suportado. Já foi encantador de serpentes... As grandes majestades se reuniam para assistir ao jazz de inaudita beleza. Hoje, as majestades e suas potestades se deliciam com suas máquinas internas - Ah, belo ego! - e rogam, rogam por silêncio (d'outrem, para poderem se ouvir melhor).

Quando houver só e realmente o silêncio, a voz daquele, os sons deste ou os sussurros do que virá serão lembrados?

A cançãozinha de uma caixinha de música, presente que era o mais querido... Essa sim, não se esquece.

A cançãozinha medíocre. antiestética. monofônica. metálica.

A caixinha chinesa, a R$ 2,00 (já que não se pode contar com o troco). A caixinha que toca a alma, e que custou míseros centavos... Com os quais muitos nem podem contar... Nem podem contar.

E nós, com o que podemos contar, afinal?

Eu, por exemplo, só tenho este inaudível, sôfrego, desgostoso, desgostado, inarticulado, psicossomático, disfórico... jazz inaudito.

Inaudito de incompreensível que é, que foi.

12 de mai. de 2007

Je suis allé...

Adoro esse silêncio.

Gosto de perscrutar o ambiente com meus ouvidos, e ouvir apenas o silêncio como resposta. É um silêncio acolhedor. Nesse silêncio, a essas horas, leio Paroles... Têm sido belas as descobertas em Literatura Francesa. Têm sido dolorosas as aulas de Literatura Francesa.

Je suis allé au marché aux oiseaux
Et j'ai acheté des oiseaux
Pour toi
mon amour
Je suis allé au marché aux fleurs
Et j'ai achéte des fleurs
Pour toi
mon amour
Je suis allé au marché à la ferraille
Et j'ai achéte des chaînes
De loures chaînes
Pour toi
mon amour
Et puis je suis allé au marché aox esclares
Et je t'ai cherchée
Mais je ne t'ai pas trouvée
mon amour

Leio Paroles. Leio Cecília. Leio Bachelard. Oswald. Bopp.

Já é manhã.

Barulho.

Tento abstrair as centelhas de sons do ambiente.

O som das teclas.
As músicas de Priscilla.
O som do vento que sopra a janela - Como canta agudamente essa janela!
De uma nave e de suas pás, pás cujos giros recortam a atmosfera azul-cobreada ressoando a melodia metálica-grave que se propaga em meus pavilhões, estremece meus tímpanos. Minha alma.
O vento sopra minha imensa janela.

Procuro o silêncio.

Algum eco se repete em minha mente, no vácuo entre meus corpúsculos celeste-cerebrais. E eu tenho precisado tanto de algum silêncio... Preciso da Greve, de férias...

Preciso do silêncio.


Como os passivos afogados
esperando o tempo da areia,
pelo mar de inúmeros lados
bóio tão venturosa e alheia
que, para mim, a noite e o dia
têm o mesmo sol sem ocaso,
e o que eu queria e não queria
aceitaram seu justo prazo.

E nem me encontra quem me espera
nem o que esperei foi havido,
tanto me ausento desta esfera.

Ó liberdade sem tormento!
(Ó fitas soltas, ó cortinas
levadas por um amplo vento
além de campos e colinas!...)
Vencendo sucessivos planos,
abrindo mundos encobertos,
chegando aos reinos sobre-humanos
onde há jardins para os desertos!

A alma do sonho fez-se ouvido
tão vertiginoso e profundo
que capta o recado perdido
dos ocultos donos do mundo.

*

Teu bom pensamento longínquo me emociona.
Tu, que apenas me leste,
acreditaste em mim, e me entendeste profundamente.

Isso me consola dos que me viram,
a quem mostrei toda a minha alma,
e continuaram ignorantes de tudo o que sou,
como se nunca me tivessem encontrado.


A Literatura Francesa (a aula, fique claro) tem me desestimulado mais a cada 'aula'.
Os poemas são lindos, os teóricos ajudam bastante, mas professora não...
Mas ainda há as outras Literaturas, Latim, Língua Francesa...
E se Deus quiser, haverá uma greve. Eu também preciso da Greve.
Quero fugir para a ECA. Me convenço de que não, estou no lugar certo.
(Ainda há as outras Literaturas, Latim, Língua Francesa...)